Trump e a Sala Oval;

Trump e a Sala Oval
John Bolton foi o principal assessor de Trump por vários anos, como chefe do NSC, Conselho de Segurança Nacional. Ele antes tinha sido Embaixador dos EUA na ONU, no governo Bush. Nas várias vezes que Trump o convidou para o governo, Bolton recusou, sabendo o que fazer para alcançar a assessoria principal. Mas aconselhou-o por 15 meses, até assumir o que queria.
 
Já nos primeiros contactos Bolton caracterizara Trump, “surrounded only by yes men” – rodeado por quem diz sim. Comentarista da conservadora TV-Fox, Bolton apontou muitos detalhes, dia, hora, palavras que cada pessoa disse em seus contactos com a Casa Branca.
Já no período de transição Obama-Trump ele observara “unexpected victory… in immediate turf fights with the transition volunteers”. E escreve que Trump não tinha um programa de governo, nem uma equipa já pensada. Era o protagonismo e o imediatismo que regiam os encontros, o que se dizia num dia não tinha valor no seguinte, se a imprensa o enfrentasse. Esta instabilidade levou Trump a mudar ministros e assessores constantemente.
Bolton claramente diz ser pró--ditadura, “eu sou o tal e mais que eu só o presidente”. Não aceitou diálogo com a UE ou outros aliados sobre a política na Síria; invadir, derrotar e pronto. O mesmo ao dialogar com outros líderes lá ou pelo mundo.
Não nega a grande influência das gigacorporações na Sala Oval. Para seu vice escolheu “Mira Ricardel, a longtime defense expert... and senior Boeing executive”. Cita ainda a influência do financista nova-iorquino Nelson Peltz, que tem 1,8 mil milhões de dólares e comanda fundos de 9 MM, colega de Isabel dos Santos e principal financiador da campanha de Trump. Ele manda na Wendy’s, enorme rede de fast-food franquiados, com contratos questionados; e na Mondelez Int’l, que vende snacks, nocivos à saúde.
Bolton ficou feliz quando Trump saiu do Acordo de Paris, sobre ambiente. Destaca que esses acordos não são para resultar, só para impressionar. Dão a impressão de governança mundial, mas o que os EUA precisam, diz ele, é continuar a liderar, sem precisar de comprometer a sua visão do que é a democracia.
A mui precisa e detalhada descrição, dia-dia, hora-hora, do que Bolton fez, a sua perspicácia em perceber intenções mais do que ouvir palavras, deixa-nos perceber a volatidade de governos sem um detalhado programa de metas, sem uma equipa coesa que faz mais do que falar, sem um líder que ouve mais do que tweeta.
Bolton detalha como Trump e a sua equipa funcionam, sempre ligados à TV-Fox, ouvindo os cartéis, sobretudo de armas, tabaco, remédios e finanças.
Bolton deixa claro como a invasão da Síria, o caso com a Coreia do Norte, a luta contra a UE, tudo tem como objetivo final dispersar a atenção dos eleitores norte-americanos sobre os reais problemas estruturais do seu país. E ainda levar a imprensa a focar-se nestes “inimigos externos” se em vez das acusações contra as corporações que ele defende, como o cartel farmacêutico, sempre a pagar multas bilionárias, e contra ele próprio.
“The Room Where it Happened” é uma obra obrigatória para quem quer perceber quem está por trás de uma política que influencia muito todo o nosso planeta.
Jack Soifer, 16/07/2020
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